20 de mar. de 2016

Zero por cento
Nando da Costa Lima

NandoOcorreu há muito tempo… Nessa época “moça” engravidava ainda botava a culpa no “tarado”, e todo mundo acreditava. Foi numa cidadezinha dessas que a gente fica sabendo até da surra que o vizinho deu na mulher (ou vice-versa – pra não ser machista). Anacleto chegou ali pra mudar o clima daquele fim de mundo, o seu jornal veio pra puxar a corda do progresso. Quando começava a falar de jornalismo enchia o saco, era uma enciclopédia de frases feitas. E foi cheio de ideias que Anacleto fundou o Compacto, um jornal mensal que segundo ele iria marcar a História da imprensa nacional.
No início tudo correu bem, a população até gostou! Mas aí chegou a política pra atrapalhar a vida de Anacleto: é que ele tinha mania de inovador, resolveu fazer uma pesquisa de opinião pública sobre a tendência do eleitorado (coisa rara na época). Esta foi feita de maneira simples, quase artesanal, mas válida pela boa vontade de querer dar uma informação à comunidade. A pesquisa agradou a quase todos, digo quase porque o “coroné” Zangão, prefeito da cidade há mais de trinta anos (um ano era ele, no outro a mulher, no outro um dos filhos, etc.) não gostou nada ao ver publicado que a oposição tinha 1% de apoio popular. Ficou retado, queria botar Anacleto pra comer um jornal em público por publicar mentiras. Aquela cidade era dele, jornal que quisesse sobreviver ali tinha que escrever segundo sua cartilha, ou o Compacto publicava uma nova pesquisa indicando ele com 100% de apoio popular , ou então se picasse. Fosse fazer jornalismo em Conquista que o povo é mais civilizado. Anacleto quando soube da ira do “coroné” ficou preocupado, ele conhecia o histórico do homem, o jeito era arrumar um jeito de acalmar a fera. Mas a coisa tava feia… Grampão, do serviço de alto-falante já tinha lido o jornal pra cidade toda. Até o “coroné” escutou, e aquilo só fez piorar a situação do Compacto. Tinha capanga do homem por toda a cidade! Cada um, além da repetição papo
amarelo, levava um exemplar do jornal e um retrato do safado que desacatou o “coroné”. A ordem era fazer Anacleto comer o jornal inteiro.
O jornalista sonhador já tinha sumido, só ficou o homem acuado, parecia um menino com medo de assombração. Toda hora que batiam à porta sua mulher tinha que arrumar uma cueca limpa, o varal já tava cheio! O Padre se tocou com a situação do jornalista e sugeriu que ele fizesse uma apelo ao “coroné” usando o próprio jornal. Ele gostou da ideia, passou horas imaginando um jeito sutil de tocar o inimigo sem ofender. Queria falar que apesar de estar com medo, não queria abrir mão de sua pesquisa. Ela era verdadeira!
No outro dia a cidade toda comprou a edição especial do Compacto, todos queriam saber como Anacleto ia sair daquela. No texto ele gastou todo o seu repertório de frases feitas. E no final, pra tocar o coração do velho coronel e da população, estampou em letras garrafais “LEMBRE-SE CORONEL: NEM CRISTO TEVE 100% A FAVOR”. E esta parece que foi a única parte do texto de quatro folhas que o coronel leu. No mesmo dia o jornalista recebeu uma cruz (tamanho natural) e um bilhete: “Gostei tanto do texto que resolvi fazer com você o mesmo que fizeram com Cristo”… Aí foi o jeito o Compacto publicar um novo resultado pra tal pesquisa, saiu um pouco diferente: “SEM CONTAR A ESTUPENDA FRENTE DO CORONEL ZANGÃO COM 100% DE APOIO DA POPULAÇÃO, houve um empate técnico entre Zé da Silva e Zé Santos, ambos com ZERO POR CENTO do apoio popular”.
Desse dia em diante o jornalista teve sossego, mas isso aconteceu tem muito tempo, na época “caçola” ainda tinha botão dos lados.
Nando da Costa Lima

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